segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Autonomia total

Entrei no ônibus, mostrei ao cobrador uma nota de cinco, pois não tinha crédito no bilhete, é quase obrigatório usar bilhete em São Paulo para pagar passagem. Ele disse estar sem troco, pediu de um jeito um tanto ríspido que eu me sentasse nos bancos da frente.

No próximo ponto desceriam duas garotas, que também estavam na frente pela falta de troco no caixa do ônibus. O cobrador avisou que desceriam na frente, elas pararam em frente a porta, mas o motorista não abriu, encarrou-as um tempo e depois perguntou se não iriam pagar. Elas disseram que não tinha troco outra vez, como se ele não tivesse ouvido o cobrador dizer, e com a mesma cara fechada, abriu finalmente a porta.

Ao descerem o cobrador comentou: "também, nota de 20 a essa hora..." e os dois compartilharam do escárnio, quando eu interpelei dizendo: "mas minha nota é de 5 reais e você também não tem troco". Ele me olhou surpreso e com desdém , e os dois terminaram o assunto.

A 100 m dali duas mulheres passavam na calçada, bem arrumadas, como se fosse a uma festa. O motorista buzinou para elas e comentou ao cobrador: "devem estar indo trabalhar... isso sim é trabalho duro! (risos, compartilhados com o amigo)".

Bem, o ônibus ia andando e chegaria logo a hora de descer, fiquei um pouco apreensiva, depois desse desfile de absurdos eu só queria sair dali correndo, se pudesse me jogava da janela. Mas enfim, fiquei firme, apertei o botão para pedir a parada, fiz carão de brava, fiquei de pé e segurei firme nos canos. O motorista começou a ir cada vez mais rápido nas rotatórias da USP, como se quisesse me derrubar, pensei até que não fosse parar no ponto, mas para a minha surpresa ele parou, porém não abriu a porta da frente, mas sim a de trás! E como não desceu ninguém ele já estava fechando para sair com o carro.

Eu falei: "vou descer por aqui, ele não tem troco", e ele: "o botão é para anunciar a saída pela porta de trás!". Fiz uma cara blasé e saí. Dei dois passos e comecei a chorar, não por mim, por eles. Foi um momento tão trágico quanto único. Eu chorando por causa da ignorância humana vivenciada.

A autonomia total aonde entra? Em todas as reflexões que essa história me levou, que não cabe a mim descrever, afinal, pensamentos são desconexos e só fazem sentido dentro da trama complexa de tudo o que já vivemos, lemos, pensamos...

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