terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Conversa de metrô

Estava eu, morta de sono na linha 4 amarela do metrô sentada de olhos fechados. Ao meu lado sentaram duas moças, de sei lá a idade, pareciam bem ensino médio, deviam ter uns 18 anos. Elas planejavam a viagem de carnaval.

Se queixavam que dessa vez iriam ficar numa casa com 14 pessoas e 1 banheiro. Qualquer um se preocuparia com isso, é realmente preocupante pensar que o vaso e o ralo podem entupir no primeiro dia e você se ferrar nos outros 4. Até aí beleza.

Meu comichão interno começou quando uma delas falou sobre uma viagem que foi "qualidade de vida". Sério, ela não sabe a definição de qualidade de vida. Para ela "qualidade de vida" era sair pra se divertir, deixar o quarto uma zona, bem porcão mesmo, com uma pilha de louça do tamanho dela na cozinha e quando chegar em casa estar tudo limpo. Disse: "na casa de praia de não sei quem, que tem empregada, todo dia a gente saia, deixava a casa uma zona e quando voltava estava tudo limpo e arrumado, isso sim é qualidade de vida!" ¬¬.

Entenda a minha ira: eu estudo terapia ocupacional e estou HÁ 5 ANOS ESTUDANDO COMO MELHORAR A QUALIDADE DE VIDA DAS PESSOAS! Pohan, se sua qualidade de vida depende da exploração de outras pessoas para arrumar o espaço em que você vive, você desarruma e você faz a sujeira, me desculpa mas eu não compactuo com a sua "qualidade de vida ilusória e superficial". Enquanto a qualidade de vida de uma pessoa existir apenas em detrimento da qualidade de vida de outras pessoas, não existe qualidade de vida, existe poder aquisitivo.

Segundo, qualidade de vida é um conceito muito abstrato e singular, cada um tem a sua forma de senti-lo, porém no geral qualidade de vida é bem estar, ou seja, sentir-se feliz, confortável, tranquilo, sem dores, estar implicado no seu próprio cuidado e no cuidado com os outros e o mundo, afinal, não vivemos numa bolha e o estado do ar que a gente respira ou o bom humor do nosso vizinho influencia na nossa qualidade de vida.

Não existe qualidade de vida individual, uma hora ou outra a merda que você esconde de baixo do tapete esparrama e sua qualidade de vida vai para o esgoto... Falando nisso eu espero sinceramente que o vaso sanitário da casa onde essa moça vai passar o carnaval entupa no primeiro dia da viagem, e o ralo também!

Caricatura tragicômica da italiana pobre

Amo ser a caricatura tragicômica da italiana pobre, adooooro:

- ir na rodoviária do Tietê e em aeroportos,
- fazer feira na xepa e olhar de fora a fora os preços,
- sacudir a toalha de mesa na janela,
- gritar o nome dos amigos na rua, dentro de estabelecimentos e pela janela do meu apê,
-sair pela rua chorando,
- fazer comida com as mãos: biscoitos, pães e tortas,
-dar gargalhadas em horas impróprias,
-bocejar bem alto quando o assunto está entediante,
- ir na 25 de março e entrar em todas as lojas comprando tudo e mais um pouco,
- fazer hidratação no cabelo com sacola de supermercado na cabeça,
- ir em mercadinho de bairro (sempre tem umas marcas bizarras de refrigerante),
- Escrever cartas,
- arroz com feijão e batata frita,
- praia com gente pobre, em que ninguém tem plástica e é feliz.

A vida é mais engraçada e divertida na pobreza (veja Chaves e Os trapalhões), porque etiqueta é muito entediante!!

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Autonomia total

Entrei no ônibus, mostrei ao cobrador uma nota de cinco, pois não tinha crédito no bilhete, é quase obrigatório usar bilhete em São Paulo para pagar passagem. Ele disse estar sem troco, pediu de um jeito um tanto ríspido que eu me sentasse nos bancos da frente.

No próximo ponto desceriam duas garotas, que também estavam na frente pela falta de troco no caixa do ônibus. O cobrador avisou que desceriam na frente, elas pararam em frente a porta, mas o motorista não abriu, encarrou-as um tempo e depois perguntou se não iriam pagar. Elas disseram que não tinha troco outra vez, como se ele não tivesse ouvido o cobrador dizer, e com a mesma cara fechada, abriu finalmente a porta.

Ao descerem o cobrador comentou: "também, nota de 20 a essa hora..." e os dois compartilharam do escárnio, quando eu interpelei dizendo: "mas minha nota é de 5 reais e você também não tem troco". Ele me olhou surpreso e com desdém , e os dois terminaram o assunto.

A 100 m dali duas mulheres passavam na calçada, bem arrumadas, como se fosse a uma festa. O motorista buzinou para elas e comentou ao cobrador: "devem estar indo trabalhar... isso sim é trabalho duro! (risos, compartilhados com o amigo)".

Bem, o ônibus ia andando e chegaria logo a hora de descer, fiquei um pouco apreensiva, depois desse desfile de absurdos eu só queria sair dali correndo, se pudesse me jogava da janela. Mas enfim, fiquei firme, apertei o botão para pedir a parada, fiz carão de brava, fiquei de pé e segurei firme nos canos. O motorista começou a ir cada vez mais rápido nas rotatórias da USP, como se quisesse me derrubar, pensei até que não fosse parar no ponto, mas para a minha surpresa ele parou, porém não abriu a porta da frente, mas sim a de trás! E como não desceu ninguém ele já estava fechando para sair com o carro.

Eu falei: "vou descer por aqui, ele não tem troco", e ele: "o botão é para anunciar a saída pela porta de trás!". Fiz uma cara blasé e saí. Dei dois passos e comecei a chorar, não por mim, por eles. Foi um momento tão trágico quanto único. Eu chorando por causa da ignorância humana vivenciada.

A autonomia total aonde entra? Em todas as reflexões que essa história me levou, que não cabe a mim descrever, afinal, pensamentos são desconexos e só fazem sentido dentro da trama complexa de tudo o que já vivemos, lemos, pensamos...